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domingo, 13 de setembro de 2015

Ambivalência



Teus dedos finos são maiores que os meus. Adoro observar nossas mãos espalmadas dessa maneira e me sentir pequena no teu abraço, grande no teu olhar, veterana no teu beijo, novata no jeito de amar.
Hoje invernou lá fora, já não era sem tempo. De temperatura alta já me basta teu hálito quente. E enquanto ele sussurra, me permito um devaneio insípido. Como seria se tu, de repente, sumisses?
Eu, provavelmente, continuaria aqui, nessa mesma varanda, deitada nessa mesma rede, mas prestes a cair. Um cair metafórico, veja bem, nunca tive coragem de tornar real.

Teus dedos finos são maiores que os meus. Espero que eles me segurem, caso eu caia. Tu me olhas diferente. O devaneio acaba. Sobrancelhas unidas, respiração próxima, o resultado é um beijo quente. A metáfora muda de tom, teus dedos não me seguram, eu começo a cair lentamente. Caí na tua estrada, no teu amor, na tua graça. E não tem melancolia, a queda dessa vez é segura, o gosto é bom, tem cheiro de mar. Olha aí... Hoje invernou, mas como sempre, tu me fazes veranear. 

Por Jenifer Lima

sábado, 15 de agosto de 2015

Chá gelado



Tanta coisa nova debaixo do sol.
Mudei de perfume, mas ainda ouço indie enquanto me arrumo.
Não bebo mais chá.
Gelamos o clima, a química, a física. E eu detesto chá gelado.
O cabelo está mais longo, as unhas mais curtas, mas continuo com a janela aberta e a alma maquiada.
Mudamos de lua, de rua, de rima.
Agora faço textos em prosa. As palavras se encaixam menos que os pensamentos.
Deixamos de fazer poesia, carinho, sentido. Sentindo. Sinto muito. 
E agora num caderno que, de tantas folhas arrancadas, emagreceu. Me apresento e escrevo em letras simpáticas "quem é você?"
Prazer em reconhecer.

Por Jenifer Lima

domingo, 19 de julho de 2015

Quebra-cabeça



“Encaixa”.
Você que disse. Numa esquina que, desavisada, serviu de pista de dança para um amor que adora valsa. Samba. Folk. Qualquer música que pudesse nos embalar, confundir nossos braços, nossas pernas, nossos batimentos.
Encaixava. E eu sorria. Eu respirava. Eu cabia.
Encaixa.
Um quebra-cabeça humano instigante pela quantidade de peças e você, que nunca deixou um desafio escapar. Você que me montou. Acomodados no chão de uma sala à meia luz que, desavisado, serviu de cama para uma paixão que adora verão. Inverno. Outono. Qualquer estação do ano, do rádio, do trem que pudesse nos aproximar, fundir nossos olhares, nossas línguas, nossas vontades.
Peça por peça.
Encaixava.
Peça.
E eu sorria.
Despeça.
Eu respirava.
Pedaço.
Eu cabia.
Despedaçada.

Por Jenifer Lima

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Quase



Trezentos e sessenta e cinco dias. Dizem que iniciar textos com contagens desse tipo os tornam dramáticos. De drama eu entendo bem.
Sabe, eu poderia contar as horas, os minutos e assim vai, mas particularmente, o nível de drama pouco importa.
Por volta desse horário, há um ano atrás, você me asfixiou. Dedos se alojaram ao redor da minha garganta e eu quase desfaleci. Mas fiquei no quase. Eu quase morri. Mas fiquei no quase. E qualquer coisa doeria menos que o quase. O quase é injusto demais.
Meu (des)querido, não vou me alongar, eu só rascunho essas linhas pra dizer que fui quebrada, mas estou quase inteira. Mas só eu sei que o quase... Ah, você sabe, o quase é casa sem teto, coberta rasgada, chuveiro queimado, é meia sem par. O quase é congelante. Eu tremo, arrepio, petrifico. Eu quase morro. Mas fico no quase. Até ano que vem.

Por Jenifer Lima

segunda-feira, 30 de março de 2015

Incurável



Observada à distância, recebeu o diagnóstico: sofria de males de insuficiência. Disseram ter havido boa avaliação dos sintomas e... pimba! Só podia ser isso!
- Males de insuficiência, moça. Receio não haver cura.
Respirou pela metade. Olhou ao redor pela metade. Sorriu pela metade. E com medo de proferir palavras pela metade, voltou a fechar a boca escancarada pela metade. Levantou-se e partiu. Vale lembrar, pela metade.
Tinha os cabelos molhados numa liberdade forjada, e caminhava de um jeito diferente. Numa dança incomum de quem tinha seu próprio ritual de felicidade, seu próprio ritmo, seu próprio mal.
Sim, era verdade. Sofria de males de insuficiência. Já o sabia antes mesmo que lhe dissessem, mas quem não o tinha? Será que quem a observava à distância, também não a observava pela metade? Será que seu diagnóstico também não era parcial?
- Sofro de males de insuficiência.
E sentada num café, confessou a um conhecido que, na verdade, lhe era bastante estranho. Ele lhe olhou a contragosto e nada disse. Foi quando ela percebeu.
Percebeu que pela metade era seu inteiro. Percebeu que insuficiência era melhor do que indiferença.

Por Jenifer Lima

segunda-feira, 23 de março de 2015

Bagagem



Continuou com o torpor entediante das vontades não atendidas, das noites que não são noites, dos dias que não são dias, do tempo que é apenas o passar de chinelo arrastado das horas vazias.
Continuou com a crise das existências perdidas, da vida que cozinha corações ao molho da indiferença, do tilintar das taças que brindam a hipocrisia.
Continuou. Andava sem rumo, sem dinheiro, com bagagem.
Até que não quis mais continuar.
Parou.
Olhou.
Trancafiou.
Guardou a insanidade daquilo que para, repara e acaba. Manteve em si a intensidade do que seca, resseca e encerra.
Do que falava, se calou. Do que calava, pronunciou. Do que odiava, amou. E do que amava...
Continuou.

Por Jenifer Lima

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Agendado


Anoto meus defeitos numa agenda, evitando esquecer. Respiro lentamente e permaneço absorta por alguns minutos pelo menos umas quatro vezes por dia. Não consigo evitar e este é um defeito de fábrica. Prendo a respiração por instantes, enquanto ouço vozes internas que são nada mais nada menos do que eu mesma pelo menos umas dez vezes por dia. Não consigo evitar e este é um defeito de fábrica. Respiro rapidamente e não sinto nada além da ininterrupta sensação de fim pelo menos umas duas vezes por dia. Não consigo evitar e este, meu querido, é mais um defeito de fábrica.
Não dou a mínima para a minha respiração e visualizo palavras melancólicas por toda a parte, entretanto, meu querido, este não é um defeito de fábrica. Entretanto, você não volta. Entre tantos, você é o operário que não mais me conserta. Entretanto, você escolheu ser só mais um entre tantos.
Olho ao redor e há uma infinidade de palavras acumuladas nos cabides das minhas incertezas, empoeiradas, desbotadas. Começo a considerar uma bela faxina, todavia, meu querido, você levou todo o material de limpeza. Todavia, você não volta. Toda a vida separei o mesmo dia da minha agenda para preencher com você. Todavia, você escolheu ir embora de mim por toda a vida. Anotei amor na sua agenda e mesmo assim você esqueceu.

Por Jenifer Lima

terça-feira, 1 de julho de 2014

Descrição


Subitamente há um frio que se espalha do centro do seu corpo para a periferia. Parece que seu sangue passou por um repentino resfriamento e a cada segundo que passa está se petrificando dentro de você, enquanto seu coração faz uma força além do normal para conseguir continuar bombeando por todos os muitos vasos que formam seu corpo. É então que aparece a sensação de que seu corpo é formado de muitas coisas, é muito grande e não te cabe ou talvez você esteja apenas diminuindo cada vez mais. A ideia de que daqui a alguns segundos você irá simplesmente desaparecer de dentro de si, faz com que o tremor comece. Inicialmente são os dedos das mãos que saem de sincronia e começam a tamborilar o ar, você tenta, mas não consegue parar. Daí pra frente, como você sabe, todo o seu corpo irá tremer. Seus ombros sacolejam de uma maneira estúpida. Sua alma sacode. Até mesmo seus pensamentos estão trêmulos e gelados. Você sente que vai chorar e fecha os olhos em sinal de derrota. O choro é denso e possui mãos de ferro que agarram toda a extensão do seu peito e garganta, até que sai em lágrimas rechonchudas. Seu choro nunca é fino, assim como a tristeza nunca é afável. Com os olhos abertos, você vê o mundo se deformar atrás das lágrimas e se sente mais confortável, o mundo deformado se assemelha ao seu coração. Você tenta inspirar. Já não consegue. É estranho como há um segundo atrás a respiração fluía, mas agora seu tórax queima ao inspirar e parece que algo amassou seus pulmões de tal forma, que não mais expandem. Você expira. Expirar é mais fácil e você tenta prolongar o ato, mas logo precisa inspirar novamente. E mais dor. E mais queimação. Suas narinas parecem dois buracos extremamente inúteis e as lágrimas aumentam em quantidade e espessura. Você se sente humilhada. Estar vivo é estar respirando. Sua falta de ar só confirma de que você não é mais um ser vivo, apenas sobrevive com um penhasco de dor dentro de si. Você tenta inspirar pela boca. O resultado é quase o mesmo, exceto que agora você solta um som agonizante a cada vez que tenta reter o ar. Seu cérebro lembra a cada ínfima parte do seu organismo de que se essa falta de ar durar mais alguns minutos, não haverá oxigênio para nada. Isso deveria fazer com que tudo se acalmasse e seu gasto de energia diminuísse, mas o botão do desespero foi acionado e tudo em você está gritando, exigindo pelo ar que está em tanta abundância ao seu redor. O som agonizante vai aumentando de volume, a inspiração e a expiração tão frequentes quanto suas tristezas. Seus dedos começam a formigar, e você sabe que, se estivesse de pé, não conseguiria se deslocar. Ainda bem que você sabe, pois desde o frio súbito, você deitou. E deitada, você percebe que se não estancar rapidamente esta falta de ar, perderá o sono e, sem dormir, você vai estar ainda mais cansada para enfrentar o mundo no dia seguinte. Eu não consigo enfrentar o mundo, você pensa. Mas então você se lembra de que pensou o mesmo ontem e antes de ontem e antes de antes de ontem, então é bobagem continuar pensando o mesmo. Quando vai ver, a falta de ar acabou, o choro, o tremor e o frio também. Só a dor continua lá, mas o importante é que você dormiu.

Por Jenifer Lima

sábado, 24 de maio de 2014

Em manutenção


Ao sorridente, ao que faz sorrir, ao que me sentiu, ao que me partiu: me mantenha. Perto, a léguas, inteira, esfacelada. Apenas me mantenha. Já não me animo aos rumores de boas notícias, já não me levanto para olhar o que há de novo pela fresta, já não combino com palavras abruptas, vontades bruscas. Não quero a surpresa de te ver chegar nem o martírio de te ver ir, quero a continuação deste segundo no próximo, quero dias com bordas amareladas, o encanto inesgotável de folhas que, de tão lidas e lindas, incham os livros.
Publique no jornal de hoje, só quero ler o de ontem. Por favor, não publique sobre mim. Não me peça pra mudar de página, de cara, de cadeira, de planeta. Não me peça, não me impeça. Mudei na velocidade da luz, paralisei pela força do vento e mais do que tudo, me cansei das tempestades. Abra a janela, conserve nosso clima, nossa estática, nossa química.

Me mantenha ao seu dispor, me mantenha ao seu impor, me mantenha ao seu amor.

Por Jenifer Lima

terça-feira, 18 de março de 2014

Louca


Tiro as roupas do varal para o caso de chover; coloco comida a mais para os cachorros, vai que eu demore a voltar; eu sei que tem uma caneta dentro da bolsa, mas é melhor comprar outra, imagina só se a primeira começa a falhar ou fica sem tinta e por um instante eu não tenha como escrever; te olho sem expressão e, por via das dúvidas, te digo um não baixinho. Minhas mãos tremem, ainda estou amedrontada com a possibilidade de não conseguir escrever quando a vontade vier, será que meu bloquinho tem folhas suficientes?
Você me diz que o não veio cedo demais, que nós ainda nem temos os motivos certos para ele, você é sempre tão a favor de continuar as coisas. Penso que há uma frase se formando dentro de mim, provavelmente cheia de antíteses e metáforas, mas tenho medo que ela saia antes que eu consiga filtrá-la. Meus textos são peneirados pela covardia e por isso são magros e ossudos. Você está tagarelando e eu me sinto péssima por não te ouvir, mas estou procurando alguma comparação boa o suficiente para descrever a forma das suas sobrancelhas perturbadas e sobre como você mexe a cabeça de um lado para o outro, como se não achasse uma fala boa suficiente que penetre na minha antecipação forçada. Você fica bonito preocupado.
Então me surge mais um conto mal acabado de como a gente poderia ser infinitamente feliz num domingo à tarde em pleno inverno. Você nem sabe, mas já estivemos em todas as estações do ano, já colorimos todos os olhares nublados, já acarinhamos todas as tristezas sem sentido. Vivemos demais. Em cada madrugada de verão vivemos anos inteiros e reunimos lembranças que já completaram bodas de ouro.
Existimos em todas as linhas de um monte de textos sem começo nem fim e eu te garanto, nós sorrimos em cada uma delas. Te digo não, mas escrevi um sim em letras garrafais numa folha de caderno. Te digo não, mas minhas mãos não param de tremer na ânsia de testar a caneta que eu comprei, pra nós dois vivermos mais um pouco no meu bloquinho rabiscado. Te digo não porque sei que se dissesse o contrário não mais seria capaz de escrever. Então, por favor, não deixe de ser meus rascunhos, minhas histórias imaginárias, meus sonhos mal contados. Não deixe de ser meu, mesmo que apenas no papel.

Por Jenifer Lima

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O dia mais bonito


Tirei a noite de folga para conseguir amanhecer. Amanheci outono, céu nublado e filme velho na TV. Amanheci sorrisos, porta da frente escancarada e piada velha ao ouvido. Cansei do melodrama de anoitecer. Percebi que amanhã foi o dia mais bonito que eu consegui me lembrar. Amanhã tinha você e eu e cantávamos uma música que nenhum dos dois lembrava a letra. Há sempre uma música interior com você por perto, um verso simples, uma cadeira de balanço numa varanda a céu aberto. Ontem eu quase me esqueci disso, mas hoje amanheci e você está em todos os lugares, em todos os cheiros, e nos rostos desconhecidos que passam por mim. Penso que tudo bem se eu ficar na cama até mais tarde e te pedir pra ficar comigo só até amanhã.

Por Jenifer Lima

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Te espero


São tantas essas portas que abrem, mas por nenhuma delas entra você. Eu sentei no degrau desconfortável te esperando passar, mas não aconteceu. Eu cheguei muito tarde, mais um de meus atrasos sempre que me programo demais. Me programei pra te dizer tanta coisa, acabei não dizendo nunca. Como sobre a vontade de morar nas curvas ao redor dos seus olhos quando você sorri. Te espero passar com o andar de quem carrega o mundo. O meu mundo que eu te dei com tanta má vontade. Te espero girar a maçaneta que eu nunca fiz questão de tocar por pura covardia. Te espero porque já não posso esperar por mais ninguém e não me resta a paciência de esperar por mim. Há o barulho dos carros, e do coração magro batendo, o zumbido dos pensamentos e o silêncio do mundo onde você não mora mais em mim, onde eu estou sentada ante a porta que não abri pra você. Mas que eu quis abrir. Pra te ver entrar por ela sem fazer cerimônia, tirar os sapatos e me puxar para mais perto. Pra te ver explorando os cômodos sem pressa, me deixando caber na alegria que te cerca, me forçando a anastomose do teu sorriso no meu. Quis abrir, mas tive medo de que lá dentro fosse tão confortável que eu nunca mais quisesse sair, e nunca mais me lembrasse do quão desconfortável é este degrau, no qual eu sento e te espero. E você não vem. Porque cansou de vir e encontrar apenas um coração magro. Eu não te disse, mas este coração magro é a chave da porta e é ele quem te espera, martelando os segundos, os minutos, a eternidade da tua ida.

Por Jenifer Lima

domingo, 17 de novembro de 2013

Sobre mim


Não consegui escrever. Esperei por qualquer lapso de criatividade que o sofrimento me proporcionasse. Não veio. Eu estava pequena demais para escrever. Essa é a beleza da dor. Ela nos diminui até cabermos numa palavra, num canto, numa lágrima fina que escorra sem vontade. Lá estava eu, miúda, esperando que nevasse ou que acontecesse qualquer coisa que me surpreendesse. Não aconteceu. Pela primeira vez, eu ansiava por algo que quebrasse o que eu havia planejado, mas a única coisa que quebrou fui eu. Em estilhaços tão finos que cortariam quem me envolvesse em seus braços. E mesmo assim, eu queria tanto.
Que engraçado, está nevando.

Por Jenifer Lima

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Sorriso nos olhos


Quis guardar aqueles olhos sorridentes pra mim.
Colocar na estante do quarto, olhar para eles a cada dia nublado, a cada noite sem lua. E olhar até cansar. Porque eu sei que cansaria, mas também sei que aqueles olhos reconheceriam meu cansaço, e sorririam ainda mais da minha volatilidade.
Os quis para substituir a visão dos meus olhos cansados, quase sempre marejados, para que a imagem saísse da escala de cinza, para que o colorido cegasse minha razão.
Pedi tanto aqueles olhos.
Pedi com tanta vontade.
Quando finalmente os tive, eles deixaram de sorrir.


Por Jenifer Lima

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O eterno só teu



Ei, você! Só me diz por que é que voc
ê não me amou do jeito certo? Eu tenho todos os requisitos pra isso. É sério. Não ri. Seu amor por outra desfila à minha frente sempre que me vê, e uma parte de mim sente inveja. A outra parte desdenha. Desdenha porque já fui eu a ouvinte dos seus arroubos de paixão, das suas meias-verdades encantadoras, das suas músicas mal cantadas, das suas juras de amor eterno.
Quem sabe o seu amor fosse eterno mesmo, mas você não sabia onde guardar, não sabia o que fazer com algo tão interminável. Você, sempre tão inconstante, sempre disperso e vago, você não soube lidar com amor eterno, não soube dá-lo a mim nem sequer arrumar um canto colorido para ele. O amor eterno virou estático, congelado, enfadonho. Não dava mais pra renovar, o prazo venceu, não aceitei mais. Permiti que a culpa fosse minha mesmo, você nem questionou, pegou seu saco de amor quebradiço, deu a quem quisesse. Não avisou que o eterno era sua fachada, seu poema gasto, sua música de rimas fúteis.
Seu amor foi passando de mão em mão, minhas digitais foram desaparecendo. Dessa vez não sofri, nunca quis amor manchado. Por mim tá tudo bem, pode ficar com seu eterno indurável.

Por Jenifer Lima

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Conflito


Quero soltar todas as linhas que me enlaçam ao resto do mundo, quero ser livre e pular algumas muitas vezes, dançar sem ritmo, sem ginga nenhuma, quero banho de chuva forte de outono, quero deitar no chão sujo e sorrir pra ninguém, gargalhar pra mim mesma. Quero deixar pra trás toda essa bagagem triste que os dias me deram, toda a ferrugem que acumulei por culpa das lágrimas empoçadas num coração entrevado.
Mas quem é que vai entender que uma das coisas mais difíceis é querer?

Por Jenifer Lima

sábado, 24 de agosto de 2013

Escolha


Foi a garotinha quem tomou a iniciativa: após nossa troca de sorrisos, ela veio até mim e disse com convicção "quando eu crescer quero ser igualzinha a você". Pedi que, por favor, não. Não, não, não. Pedi pra ela escolher outra pessoa, pra ela rir mais, conversar mais, se encaixar mais, pra ela ser mais. Pedi pra brincar, correr, cair e superar; não levar nada muito a sério, viver de pôr-do-sol, de pote no final do arco-íris, de paredes desenhadas. Viver de graça. Com graça. Pedi, supliquei, até chorei, mas sem ela ver nem ouvir nada. No fim das contas, só falei que também queria ser igual a ela quando crescesse. O problema é que já não dá mais tempo de crescer. Nem de escolher.


Por Jenifer Lima

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Invisível


Ontem senti saudade. Não aguentei. Peguei a caixa. Aquela, escondida, empoeirada, aquela que tem você, misturado a todos os motivos de insônia, de lágrimas, de pensamentos evitados. Não te evitei dessa vez. E sofri. Mais uma vez. Como da última vez. E me culpei. Porque é isso o que eu faço quando a saudade aperta e eu me lembro de você falando as frases mais clichês, as metáforas tão rasas, aquilo que usa com todo mundo, e eu sempre insistindo em ser profunda demais, criteriosa demais, e fraca. Porque você nem sabe que eu estou aqui, abrindo a sua caixinha, porque você não mudou as frases nem as metáforas, mas você mudou de mim. Eu não mudei de você, não mudei de mim, continuei a mesma profunda, criteriosa. Só me tornei fraca. Do tipo que não aguenta de saudade, do tipo que te esconde em caixas, do tipo que finge ser forte, do tipo que ninguém vê.

Por Jenifer Lima

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Vida efêmera

Efemeróptero: inseto que nasce e morre no mesmo dia.

Eles são feios. Quero dizer, esses insetos. Mas há uma beleza nas coisas da vidas que são passageiras. Elas são desinteressadas e desregradas.
Ninguém dorme como acordou. Todo mundo nasce e morre no mesmo dia pra se remodelar e assumir diferentes posições no próximo dia. São as coisas imutáveis que acabam rápido, nascem para morrer de desgaste, de fadiga. 
Ser efêmera é permirtir-se ser, ir, vir, deixar nascer e morrer. 
É ser constantemente breve, até permanecer. Mesmo sem querer.

Por Jenifer Lima

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Meiga

Tudo estava indo tão bem, apesar de você me irritar majestosa e diariamente, e ainda assim - ou talvez por ser assim - tudo estava indo tão bem. Mas então você me vem com seu sentimentalismo que me parece tão presunçoso e tão experiente, você me vem com aquelas três palavras que faria menininhas sorrirem, mas que, para mim, quebram todo o clima. E depois de dizer que me ama, ainda completa: "porque você é assim, toda meiga e bonita"
Eu não sou meiga não, tá? Sou incompleta, cheia de mínimas partes que ao se juntarem não dão um inteiro. Já houve vários que me chamaram de meiga e levaram uma parte e a cada vez que eu tento unir o que sobra me esmiuço ainda mais.
Por que no fim das contas, eu sou meu próprio martelo.
Eu sou o carteiro que distribui suas próprias cartas esperando que alguém escreva nelas seu endereço somente para que pertençam a algum lugar. 
Eu só quero um selo, um remetente, um alguém que me leia e me decifre, eu só não quero ser rasgada de novo, ser distribuída em mais mil envelopes cheirando a mofo.
Eu quero um cheiro diferente, aroma de completo. Porque pra mim, amor só pode ser se for inteiro, só pode ser se simplesmente for.
Nem meiga, nem carteiro, nem carta.
Sou fração de elogio, fração de metáfora, fração de ser.

Por Jenifer Lima